Robert Míssil
we're ugly but we have the music
terça-feira, julho 24, 2007
segunda-feira, julho 23, 2007
domingo, julho 22, 2007
sábado, julho 21, 2007
sexta-feira, julho 20, 2007
quinta-feira, julho 19, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
terça-feira, julho 17, 2007
Os sentidos sentidos
Malva Melancolia. Em olhos malcolores
Como um lixo (é outro amansado) se aposenta.
Tamanha Estreita. Num gargalo estreita
Mais a mim Marabu finado entre os ombros
Murcho rei Nepentus Menos dos longilíneos.
.
Filtrar pelas narinas o martírio:
Uma aquamorta em sílabas compridas
Como ferir a fina flor das pleuras
Ou sepelir entre olivas papilas
Narsinga, torres de ouro sobre a língua.
Augusto de Campos,
poesia 1949-1979
domingo, julho 15, 2007
Presto
Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.
Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)
e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,
a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,
no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro
está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,
a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis
em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis
enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.
Eucanaã Ferraz,
Rua do mundo
sábado, julho 14, 2007
X - il pensieroso
...et c'est la première. Corpo de bronze diante do mar; casa do pensamento
a espuma. Em cada grão a crônica dos faraós. Ou nada. Perguntaste-me.
Resposta do hierofonte de Ptolomeu: o próton cai.
XI - vinho do porto
Cin-Cin. O centro está em toda parte, a periferia onde o tempo acaba.
Entrarsair é a prescrição: no ponto rubro lembramos a Uva. Devagar bebo
da fonte da juventude, ergo bezerros de ouro aos ponce-de-leóns. Tawny.
Horácio Costa,
O livro dos fracta
sexta-feira, julho 13, 2007
O ladrão itinerante
Não é difícil achar
o ladrão itinerante
ele habita nosso lar
intermitentemente
vai e vem como se fosse
amigo íntimo da gente
e seu silêncio transcende
o mais ancestral silêncio
suas mão são de veludos
e tem de borracha os pés
porém acima de tudo
é brasileiro que nem eu
ele surge de repente
dependurado na estante
logo após está ao lado
do cúmplice criado-mudo
some e reaparece diante
de um (caro) estudo de peras
parte na sexta e promete
regressar segunda-feira
é brasileiro que nem eu
e dorme porém em suma
talvez nossa pátria seja
esse outro país enorme
entre alguma hora e hora alguma
João Moura Jr.,
Páginas amarelas
quinta-feira, julho 12, 2007
Mr. Paradise
mr. paradise sai às ruas com
suas invisíveis roupas antes
aparentemente distraído agora
abaixa-se e toca uma
folha (qualquer coisa) vermelha
pensando ser outono ou tudo
aquilo que pensamos en-
quanto borboletas brincam
entre punks e turistas Ela
sorri como um céu sem nuvens
(sob um chapéu pensante
de abas quilométricas)
e a gente começa a segui-la
enquanto humildemente acena para
jardineiros & floristas
Londres, Soho
12 de junho, 1984
Rodrigo Garcia Lopes,
Solarium
quarta-feira, julho 11, 2007
sábado, julho 07, 2007
Idéias chic
A císnica criatura
Indaga-me
Profundamente sígnica:
"Devo comprar um chicote?"
Se é para punir-se:
Não!
Para os outros: Sim!
O velho mestre
Anda de um lado para outro
E rosna:
"Se a consciência me importuna
Trato-a a chicotadas"
Que idéia
Suspira
Como um cisne de outrora
1997
Sebastião Uchoa Leite,
a espreita
quarta-feira, julho 04, 2007
Largo
O rei Davi tinha uma harpa em cima do leito,
seu sono era tranqüilo. Ao longe
alguém ouviu um harmônio, uma voz cantava
sem que sentido algum ligasse as palavras.
Para onde iam, nem mesmo companheiras? Intinerário
impressentido as levava. Teriam escolhido
ir a parte alguma -- rios libertos de um percurso?
No largo mostrou-se o indício de um caminho
mas logo viu-se só -- vento e folhagem.
Indagações morriam nos ângulos
num chão de musgos. Ouvir, ouviu a música distante.
Percebeu a imagem -- jamais a vira antes --
esvaindo-se ao fim da melodia.
Dora Ferreira da Silva,
Poesia reunida
terça-feira, julho 03, 2007
Fala
no varal:
os trinta e três
o pão
que o diabo amassa
às vezes
em salvas de prata
às vezes
não
"o quê?
uma queda autobiográfica
a essa altura do campeonato?
villon já passou por aí
e tantos outros.
diga trinta e três"
e daí?
eu sou mais eu
-- ou melhor --
não existe
ninguém
que possa estar
em meu lugar
não é este
o limite
que quer
toda linguagem?
a vida é
sem medida
e isto
é rigor
Duda Machado,
Crescente
segunda-feira, julho 02, 2007
Antologia
engole o peixe com a espinha
e tocarás a guelra de Deus
aprende todas as palavras
antes de reduzi-la a Uma
ser infinitas palavras:
não precisar de Nenhuma
Afonso Henriques Neto,
restos & estrelas & fraturas
domingo, julho 01, 2007
Um pássaro na garganta de Dylan Thomas
Em todos os animais um animal.
A carne apalpa a ressurreição
e a cospe longe. A alma,
minuciosamente vencida, quer a uva,
a unha, e o que se bebe na concha.
Só Deus em todos os animais
prepara vingança,
como se fosse um Animal
e suportasse nos ombros
o peso das veias.
Armindo Trevisan,
Nova antologia poética